Viagem

A viagem não acaba quando eu chego em casa

Eu planejava viagem pensando em voo, hotel e tudo que queria ver. A dor crônica acrescentou outra moeda ao meu orçamento de viagem: energia.

Jessica Paes · · 11 min de leitura

Eu tinha ingresso para ver o Menos é Mais em Lisboa.

Para quem não conhece, é um grupo de pagode brasileiro — e ver eles ao vivo era uma vontade antiga minha.

Então comprei os ingressos. Comprei as passagens. Minha irmã e eu chegaríamos em Lisboa por volta das 15h, o show era às 20h e voltaríamos na manhã seguinte.

No papel, fechava.

Na prática, eu tinha tomado várias decisões que o meu corpo estava prestes a cobrar.

Eu estava viajando com mochila em vez de mala de rodinha. Pesava menos de 10 quilos, mas carregar aquilo pelo aeroporto sobrecarregou meu pescoço, minha cervical e meu quadril.

E eu estava entrando na fase do ciclo menstrual em que meus sintomas costumam piorar, sem ter levado todos os remédios que normalmente carrego para crises de dor e enxaqueca.

Fora o voo em si: ficar sentada, o barulho, as luzes, a sobrecarga sensorial.

Quando cheguei em Lisboa, eu já estava com dor.

Antes de conseguir ir ao show que era o motivo inteiro da viagem, eu estava procurando farmácia para comprar alguma coisa para a dor.

E isso era só o começo.

Eu viajava como se minha energia fosse infinita

Viajar nem sempre exigiu tanto cálculo.

Teve uma época em que eu escolhia o voo porque estava barato, não porque tinha calculado o que acordar às 4h da manhã faria com o resto da viagem.

No começo, eu andava horas pelas cidades tentando ver o máximo possível. Às vezes comer era só um encaixe entre um passeio e outro, não algo em torno do qual eu organizava o dia.

Depois, quando tinha mais dinheiro e viajava de outro jeito, as férias ficaram mais confortáveis — mas continuavam ativas.

Eu adorava acordar cedo, descer para a academia do hotel e treinar de verdade antes do café da manhã.

Tinha algo de luxuoso em treinar de férias justamente porque depois eu não precisava estar em lugar nenhum.

Eu treinava, tomava um café da manhã longo no hotel e ia para a praia, para a piscina ou passear.

À noite, tomava banho, me arrumava e saía para jantar.

Já fiz viagem de esqui em que passava horas na pista durante o dia e ainda me arrumava para sair à noite.

Até as minhas férias preguiçosas não eram tão preguiçosas assim.

O que eu não fazia era calcular quanta energia a terça-feira ia me custar na quarta.

Eu não precisava.

Aí meu corpo mudou.

E, com o tempo, o jeito de viajar teve que mudar junto.

A Tailândia foi a primeira vez que percebi que algo tinha mudado

A primeira viagem em que lembro de encarar isso de frente foi a Tailândia.

Acho que foi em 2024 — precisaria conferir o ano exato — e fui inicialmente com o meu namorado da época. No meio da viagem, encontramos minhas irmãs mais novas. Ele voltaria para casa e eu seguiria viajando com elas.

A Tailândia foi difícil para o meu corpo quase desde o início.

O calor me esgotava. Tive dificuldade com a comida e sintomas gastrointestinais. Passei boa parte da viagem enjoada e ainda tive diarreia de viajante, mesmo tomando um produto para tentar evitar.

Mas o que mais lembro é do cansaço.

Meu namorado queria sair. Queria beber alguma coisa, ir jantar fora.

E às vezes eu simplesmente não conseguia.

Em um dos dias, tive uma enxaqueca tão forte que não consegui sair da cama.

Ele ficou decepcionado por a gente não poder sair.

E eu lembro de pensar: imagina a minha decepção.

Eu não estava escolhendo passar as férias na cama.

Eu não estava sendo chata.

Eu estava na Tailândia, um lugar que atravessei o mundo para conhecer, olhando para fora de um quarto de hotel porque meu corpo não colaborava.

Quando minhas irmãs chegaram, estavam animadas. Queriam margarita, festa, passeio de barco, noite fora.

Eu estava bebendo água de coco.

Em algum momento, alguma coisa em mim relaxou.

Minhas irmãs tinham uma à outra. Se quisessem sair, podiam.

Então eu comecei a dizer:

Vai. Vai para a festa. Vai passear. Continua explorando. Eu volto para o hotel.

E foi o que eu fiz.

Passei mais tempo sentada. Mais tempo deitada. Mais tempo tentando me recuperar entre uma coisa e outra.

Ainda assim foi uma viagem. Ainda teve momentos bons.

Mas também foi muito difícil.

Quando estava indo embora, eu estava tão exausta e frustrada com a experiência que dei o dedo do meio para o país no aeroporto de Bangkok.

Não exatamente o final inspirador que entraria num folheto de turismo.

Mas era real.

Viajar tem outra moeda agora

Durante anos, eu pensava no custo da viagem basicamente em dinheiro.

Quanto custa o voo?

Dá para não despachar mala?

Vale a pena pagar mais nesse hotel?

Dá para ir de transporte público em vez de táxi?

Consigo espremer mais uma noite nesse destino antes de voltar?

Eu ainda penso em dinheiro. Claro que penso.

Mas a dor crônica introduziu outra moeda em cada uma dessas decisões: energia.

E a opção mais barata no bolso nem sempre é a mais barata no fim das contas.

Um voo às 6h pode economizar dinheiro, mas bagunça meu sono e afeta o dia seguinte.

Um hotel mais barato longe dos lugares que quero visitar significa andar mais, pegar mais transporte e ter menos chance de voltar para o quarto quando preciso descansar.

Economizar levando mochila em vez de mala de rodinha pode significar disparar a dor antes de a viagem começar de verdade.

Ir de transporte público em vez de Uber pode economizar 20 euros e custar uma hora em pé, carregando bagagem e em sobrecarga sensorial.

Uma noite a mais de hotel custa dinheiro.

Mas às vezes essa noite a mais compra outra coisa: recuperação.

Lisboa me ensinou isso do jeito caro

O frustrante da viagem a Lisboa é que eu acertei coisas importantes.

Nosso hotel ficava a uns dez minutos a pé do show.

Essa acabou sendo uma das melhores decisões que tomamos.

Quando decidi sair mais cedo do show, não teve deslocamento complicado. Foram dez minutos a pé e eu já estava no quarto.

Também estávamos a uns 15 minutos de carro do aeroporto.

E viajar sem bagagem despachada significou não precisar chegar tão cedo nem ficar em pé esperando mala depois.

Essas coisas fizeram diferença.

Mas não compensaram tudo o que eu empilhei em volta delas.

Eu voei para Lisboa no dia do show.

Carreguei aquela mochila o trajeto inteiro.

Não planejei direito considerando a fase do meu ciclo menstrual.

E me esperando na manhã seguinte tinha outra decisão péssima: um voo cedo que exigia acordar por volta das 6h.

Então, enquanto eu estava em pé no show com que sonhei, parte da minha cabeça já estava na manhã seguinte.

Eu estava com dor.

Estava cansada.

Sabia que não ia dormir o suficiente.

E sabia que, em poucas horas, ia ter que pegar minhas coisas e submeter meu corpo a mais um aeroporto e mais um voo.

Eu tinha protetor auricular para o barulho. Tinha óculos para ajudar com as luzes e a sensibilidade sensorial. Tinha remédio para enxaqueca.

Mesmo assim, não consegui aproveitar o show de verdade.

No fim, saí antes de acabar.

A conta daquela viagem não chegou depois que voltei para casa. Chegou antes mesmo de o evento principal terminar.

Então agora eu planejo de trás para frente

Se eu fosse planejar aquela viagem a Lisboa hoje, começaria pelo show e iria construindo em volta.

O show não é mais só um quadradinho no roteiro.

É o evento que exige mais energia.

Tudo em volta precisa existir para tornar aquele evento possível.

O ideal seria chegar dois dias antes. No mínimo, um dia antes.

Sim, isso significa pagar mais uma noite de hotel. Talvez duas.

Significa mais refeições.

Significa que a viagem sai mais cara.

Mas também dá ao meu corpo tempo de processar o voo antes de eu pedir que ele aguente em pé um show cheio de barulho, luz e gente.

Eu continuaria escolhendo hotel perto do local. Essa parte funcionou.

Levaria todos os remédios que uso em crise, esperando precisar ou não.

Levaria protetor auricular e algo para reduzir o impacto das luzes fortes.

Faria os exercícios de fisioterapia que tenho hoje.

Dependendo da viagem, consideraria até levar meu próprio travesseiro, porque dor no pescoço vira gatilho para mim.

E a mochila?

Nunca mais. Mesmo que seja para uma noite só, eu levo algo com rodinha.

Localização virou um dos meus maiores gastos de viagem

A mesma lógica vale para onde eu me hospedo.

Se estou em Roma e uma das coisas que mais quero ver é o Coliseu, prefiro ficar perto do Coliseu a economizar num lugar distante.

Não porque eu precise de hotel de luxo.

Porque eu preciso de uma saída.

Se eu cansar no meio do dia, quero poder voltar a pé para o quarto, colocar as pernas para cima, dormir 20 minutos e depois decidir se consigo continuar.

Quem está viajando comigo pode voltar junto. Ou pode continuar passeando.

Essa liberdade importa muito.

Um hotel bem localizado me dá permissão de parar antes que o meu corpo me obrigue.

Isso é algo que ainda estou aprendendo.

Por muito tempo, descansar parecia desperdiçar parte da viagem.

Agora começo a entender que às vezes descansar uma hora é o que me permite ter o resto do dia.

Eu não pego mais o primeiro voo do dia

Quando dá, evito voos antes das 11h.

Não quero que viajar exija acordar às 3 ou 4 da manhã só porque a passagem estava mais barata.

O mesmo vale na volta.

A Jess de antes tentaria aproveitar cada hora possível no destino.

Hoje, se o check-out é às 10h, fico tranquila em tomar café ou almoçar e pegar um voo entre umas 14h e 16h.

Não preciso de mais um passeio de despedida.

Preciso chegar em casa sem destruir meu sono.

E às vezes eu pego o Uber.

Não porque virei extravagante do nada. Porque às vezes o táxi é um gasto de acessibilidade.

O ajuste mais difícil não é logístico

Existe uma parte de viajar com dor crônica que nenhum buscador de passagem resolve.

As outras pessoas.

Viagem é cheia de expectativa.

Você pagou para estar ali. Sua amiga está animada. Seu parceiro quer sair. Suas irmãs querem mais uma margarita.

E dizer “preciso voltar para o hotel” dá a sensação de estar estragando alguma coisa.

A Tailândia começou a me ensinar que eu não podia seguir responsabilizando o meu corpo pelas férias de todo mundo.

Lisboa reforçou.

Minha irmã entendeu quando precisei sair do show. Ela me ajudou. Foi na farmácia por mim. Não teve negociação sobre se minha dor era grave o bastante.

Isso importa.

Quando dá, quero viajar com gente que entende que meus planos às vezes precisam mudar.

E também tive que me acostumar a pedir ajuda para desconhecidos.

Já teve momento em que eu sabia que levar a mala da recepção até o quarto ia disparar a dor, então pedi para a equipe do hotel levar.

Pedir ajuda antes de me machucar é melhor do que provar que eu conseguia sozinha e pagar por isso depois.

Talvez eu viaje menos agora

Tudo isso cria uma realidade desconfortável.

Viajar assim pode custar mais caro.

Um voo mais tarde pode ser mais caro que o das 6h.

Um hotel central pode custar mais que ficar fora da cidade.

Uma noite extra de recuperação custa dinheiro.

Uma mala de rodinha pode significar pagar outra franquia de bagagem.

Em voo longo, pode valer a pena pagar por mais espaço para as pernas, se der.

Fora táxi, remédio, comida que eu sei que tolero melhor e, às vezes, dias de recuperação antes e depois da viagem.

Não dá para fingir que esses custos não pesam.

Talvez eles signifiquem menos viagens.

Mas começo a achar que prefiro fazer menos viagens que meu corpo tenha chance de viver de verdade do que colecionar destinos que eu lembro sobretudo pela dor.

Para mim, essa é a alternativa ao pensamento de tudo ou nada que a dor crônica cria com tanta facilidade.

Eu adoeci.

Isso não significa automaticamente: não posso mais viajar.

Mas também não significa fingir que nada mudou.

Eu posso viajar. Só tenho que viajar diferente.

Tenho que orçar dinheiro.

Tenho que orçar tempo.

E agora tenho que orçar o meu corpo também.

A viagem não começa quando eu pouso nem termina quando embarco de volta.

Ela começa com o sono da noite anterior.

Inclui o peso da bolsa nos meus ombros, a distância entre o hotel e o lugar que sonhei conhecer, a refeição que pode me fazer mal, a pessoa que viaja comigo, o voo que escolhi porque estava 40 dólares mais barato.

E às vezes ela continua por 24 ou 48 horas depois que chego em casa, quando a conta finalmente chega.

Ainda estou aprendendo a calcular essa conta.

Mas estou aprendendo outra coisa também.

Descansar não é mais a parte que atrapalha a viagem. Às vezes, descansar é o que torna a viagem possível.
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Jessica Paes

Jessica Paes é escritora e criadora de conteúdo brasileira-australiana. Depois de quase 14 anos morando na Austrália, tirou um ano sabático na Itália após o diagnóstico de uma condição crônica de saúde. Escreve sobre viagem, vida fora do país, identidade e explorar o mundo convivendo com dor crônica.