Viagem
Voltar para Sydney depois de um ano fora: rever a minha casa com olhos de viajante
Depois de quase 14 anos chamando Sydney de casa, um ano fora mudou a forma como eu quero viver a cidade que eu achava que já conhecia.
Jessica Paes · · 5 min de leitura
Quando cheguei em Sydney, em fevereiro de 2012, quase tudo parecia novo. O tamanho da cidade. A baía. As praias. O fato de que um fim de semana comum podia significar pegar uma balsa, caminhar pela costa ou dirigir até um lugar completamente diferente de onde eu tinha acordado naquela manhã.
Em algum momento, porém, Sydney deixou de ser um destino e virou simplesmente a minha casa.
Construí a minha vida adulta ali. Estudei, trabalhei, mudei de carreira, fiz amizades, criei rotinas e aprendi a cidade do jeito que só se aprende depois de anos morando em um lugar. Sabia quais praias eu preferia quando queria espaço, quais caminhadas na costa valiam a pena numa manhã de céu limpo, quais bairros eram completamente diferentes entre si e o quanto “perto” pode ser longe no trânsito de Sydney.
Quando saí da Austrália, em outubro de 2025, já eram quase 14 anos morando lá. Eu não olhava mais para Sydney com olhos de visitante.
Aí eu fui embora.
Um ano fora mudou mais do que a paisagem
Vim para a Itália tirar um ano sabático num momento em que a minha vida já tinha mudado bastante. Eu tinha sido diagnosticada com uma condição crônica de saúde no ano anterior, e o jeito como eu vinha trabalhando e vivendo não se sustentava mais.
Parte do motivo de me afastar era simples: eu precisava de espaço para entender como seria, na prática, uma vida que respeitasse a minha saúde.
No começo, encarei o sabático do mesmo jeito que encarava o trabalho. Tinha planos de cursos, certificações, projetos, exercício, aprender italiano e uma lista longa de coisas que eu achava que “deveria” cumprir. Até perceber que eu tinha recriado a mesma pressão, só que em outro país.
O que eu precisava de verdade era bem menos impressionante no papel. Caminhadas. Movimento que fizesse bem. Tempo ao ar livre. Ler num café sem pressa. Descansar sem transformar o descanso em mais uma tarefa. Algumas horas de trabalho criativo com foco, em vez de um dia inteiro provando que eu ainda era produtiva.
E, principalmente, comecei a pensar em quais partes dessa vida eu conseguiria levar de volta para Sydney.
Eu não queria que a Itália fosse uma interrupção bonita, sem relação com a minha vida real. Queria que o ano fora mudasse o jeito como eu voltaria para casa.
Voltar para a mesma cidade em outro corpo
É isso que torna essa volta interessante pra mim.
Sydney não ficou estranha de repente. Eu ainda conheço a cidade intimamente. Mas estou voltando com um corpo, prioridades e expectativas diferentes dos que eu tinha quando fui embora.
Viver com dor crônica muda algumas das perguntas que eu faço sobre viagem e sobre cidades.
Quanta energia uma experiência realmente exige, além do tempo que aparece no Google Maps? Tem onde sentar? Quanto se caminha depois de chegar? O transporte público é direto ou um dia “tranquilo” vira várias conexões e uma subida longa a pé? Um roteiro bonito continua sendo um bom roteiro com menos coisas dentro dele?
São perguntas práticas, mas elas também estão mudando o meu jeito de pensar exploração.
Durante anos, morar em Sydney significou adiar justamente as coisas pelas quais gente do mundo inteiro atravessa o planeta. Sempre teria outro fim de semana pra aquela balsa, outro verão pra aquela praia, outra manhã pra aquela caminhada na costa.
Agora fiquei curiosa pra ver o que acontece quando eu paro de usar a proximidade como desculpa pra adiar.
Ver Sydney como moradora e como viajante
Existe uma tensão útil em voltar para um lugar que você conhece bem depois de tempo suficiente longe.
Conheço Sydney como moradora. Sei que a cidade é muito mais do que a Opera House e Bondi Beach. Sei o quanto um dia no Inner West é diferente de um dia nas Northern Beaches, como o clima muda de um bairro pro outro e como boa parte do encanto de Sydney está nos rituais comuns de morar ali, não em riscar pontos turísticos da lista.
Mas, depois de um ano na Europa, espero também reparar em coisas que eu tinha parado de ver.
A luz. O espaço. O tamanho da costa. A relação despretensiosa das pessoas com o ar livre. O fato de você sair de uma cidade densa e, pouco tempo depois, estar nadando, caminhando numa trilha ou olhando pro mato.
Não Sydney como checklist, nem Sydney como uma versão nostálgica de casa, mas Sydney como um lugar que eu conheço a fundo e topo olhar de novo.
Um outro jeito de viajar pela Austrália
A minha volta também não é só sobre Sydney.
Quero mais liberdade geográfica nesse próximo capítulo. Vou passar um tempo na Gold Coast depois de voltar e quero viajar mais pela Austrália, mas de um jeito que funcione com a minha saúde, e não brigando com ela o tempo todo.
Isso pode significar roteiros mais lentos. Mais dias de descanso. Escolher hospedagem pensando em como a viagem se sente, e não em quanta coisa cabe nela. Prestar mais atenção em transporte, acessibilidade e no esforço invisível de circular por um lugar.
Não significa desistir de viajar.
Se mudou alguma coisa, foi o contrário: o diagnóstico me deixou mais interessada na pergunta de como a gente continua explorando quando a energia deixa de ser algo garantido.
Existe muito texto de viagem construído em cima de otimização: o máximo de coisas pra fazer, o roteiro perfeito de 48 horas, o tanto que dá pra ver antes de pegar o voo de volta.
Eu ando interessada em outra coisa.
O que faz uma viagem valer de verdade a energia que ela custa?
Casa pode voltar a ser um destino
Quando eu voltar para Sydney, não vou estar descobrindo a cidade pela primeira vez.
Vou estar fazendo algo que, de certa forma, me parece mais interessante: voltar para uma cidade que moldou a minha vida adulta e perguntar o que eu percebo agora.
Sei para onde estou indo. E também sei que não sou exatamente a mesma pessoa que foi embora.
Talvez esse seja um dos presentes de passar um tempo longe de casa. A distância devolve os contornos dos lugares familiares.
Sydney virou comum pra mim porque eu tive a sorte de morar lá por muito tempo. Agora, depois de um ano fora, estou animada pra deixar que ela volte a ser um destino.
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Jessica Paes
Jessica Paes é escritora e criadora de conteúdo brasileira-australiana. Depois de quase 14 anos morando na Austrália, tirou um ano sabático na Itália após o diagnóstico de uma condição crônica de saúde. Escreve sobre viagem, vida fora do país, identidade e explorar o mundo convivendo com dor crônica.