Viagem
Saí de Sydney porque não tinha como ficar doente lá. Agora estou voltando pra casa.
Depois de quase 14 anos na Austrália, a dor crônica me empurrou para um ano na Itália. Estou voltando para a cidade que chamo de casa, mas já não tenho certeza de que quero a vida que deixei para trás.
Jessica Paes · · 11 min de leitura
Quando cheguei em Sydney pela primeira vez, eu tinha 21 anos e quase nunca tinha entrado em um avião.
Minha família chegou a organizar um voo doméstico no Brasil antes de eu ir embora, só para o meu primeiro voo da vida não ser também uma viagem internacional para o outro lado do mundo.
Aí, em fevereiro de 2012, eu e a minha irmã aterrissamos na Austrália.
Entre as duas, tínhamos cerca de AUD$250.
Ficamos em um homestay com uma família australiana em Ryde, longe do centro de Sydney. Lembro de pegar a balsa para a cidade, ainda tentando entender esse lugar enorme e novo para onde eu, de algum jeito, tinha decidido me mudar.
Aí a realidade bateu bem rápido.
A escola de inglês cobrou cerca de $120 de cada uma só pelo aluguel dos livros. Quase todo o dinheiro que a gente tinha trazido acabou na primeira semana.
Tínhamos o cartão de crédito da minha avó para emergências, mas o que a gente precisava mesmo era de emprego.
Consegui um no Criniti’s, em Darling Harbour, um restaurante italiano gigante e sempre lotado, com mais de 650 lugares. Eu nunca tinha trabalhado em restaurante.
Nas primeiras semanas, trabalhei com um sapato baratinho que comprei na Kmart, esperando o primeiro pagamento. Eu e a minha irmã comíamos McDonald’s o tempo todo porque tinha um cheeseburguer de $2 que cabia no bolso.
Não era glamouroso.
Mas Sydney, de algum jeito, era.
Fiz amizades no restaurante. A gente saía para jantar. Descobrimos uma versão da noite de Sydney que praticamente não existe mais, quando Kings Cross ainda era o centro de tudo. Eu saía, bebia demais e fiquei bêbada de verdade pela primeira vez.
Eu tinha 21 anos e estava absurdamente longe de tudo que conhecia.
E, de repente, o mundo parecia enorme.
A Austrália também virou o ponto de partida das minhas viagens. Fui para a Gold Coast e Surfers Paradise com amigos. Depois vieram Singapura, Bali e Tailândia.
Para alguém que nunca tinha saído do Brasil antes de pousar em Sydney, o mapa da minha vida se expandiu muito rápido.
Mas Sydney não virou casa com a mesma velocidade.
Quando um lugar vira casa aos poucos
Pelos primeiros seis anos, talvez oito, eu não tinha certeza de que pertencia àquele lugar.
Mesmo construindo uma vida na Austrália, tinha sempre uma pergunta rondando o fundo da cabeça: aqui é mesmo a minha casa?
Conseguir a residência permanente mudou alguma coisa. A cidadania também.
Mas, olhando para trás, não acho que tenha sido um visto ou um passaporte que fez a Austrália ser minha.
Foram as pessoas.
Ao longo dos anos, construí um círculo de amizades, principalmente mulheres brasileiras, que viraram a minha família na Austrália. Havia história entre a gente. Aniversários, jantares, anos difíceis, fins de semana comuns. Aquele tipo de relação que só se constrói ficando tempo suficiente em um lugar.
Ao mesmo tempo, algo mais complicado acontecia com a minha relação com o Brasil.
Eu voltava mais ou menos a cada dois anos e, em algum momento, percebi que voltar para o Brasil já não era exatamente voltar para casa.
Eu continuava amando. Claro que sim. Sou brasileira. Continuava sendo parte de mim.
Mas eu tinha mudado.
Não teve um dia específico em que o Brasil deixou de ser casa e a Austrália tomou o lugar. Foi acontecendo aos poucos, quase invisível. Eu simplesmente comecei a sentir um pouco menos falta do Brasil, enquanto a vida que me esperava em Sydney passou a significar um pouco mais.
Em algum ponto desses anos, deixei de ser alguém que tinha se mudado para Sydney.
Virei alguém que era de outro lugar, mas cuja casa era Sydney.
E aí eu adoeci.
Quando a sua casa fica cara demais
Quando saí de Sydney, em 1º de novembro de 2025, ela era casa sem nenhuma dúvida.
Mas essa casa também tinha ficado absurdamente cara.
Eu pagava AUD$370 por semana pela minha parte em um apartamento de dois quartos que dividia com os meus irmãos, mesmo depois de a gente alugar a garagem.
Quando você está saudável e trabalhando, números assim viram parte do custo de fundo de morar em Sydney.
Quando você não está bem e mal consegue trabalhar, eles deixam de ser ruído de fundo.
Eu tinha sido diagnosticada com uma doença crônica. Eram consultas, clínico geral, especialistas, exames e medicamentos exatamente no momento em que a minha capacidade de trabalhar tinha mudado.
E não era só saúde ou aluguel.
Sydney continuava linda. Continuava segura. Meus amigos estavam lá. Minha família estava lá.
Mas participar da versão de Sydney que eu conhecia também custava dinheiro.
Um jantar, alguns drinks, um Uber para casa. Uma saída comum virava facilmente uma noite de $80 sem nada de extravagante.
E não era só dor física.
Em junho e julho de 2025, passei por um período profundo de depressão. Meu corpo tinha parado de me deixar fazer tantas coisas que me faziam sentir eu mesma.
Eu não conseguia ir à academia.
Não conseguia dançar.
Em alguns dias, sair da cama parecia impossível.
Em algum momento, precisei separar duas perguntas que eu sempre tinha tratado como uma só:
Onde eu quero morar?
E: onde eu consigo pagar para me recuperar?
A Itália oferecia uma resposta que Sydney não conseguia dar naquele momento.
Minha irmã tinha um apartamento de três quartos. Tinha um quarto sobrando para mim e um escritório onde eu podia tocar os meus projetos. Ela e o marido me receberam na casa deles, e eu podia ficar sem pagar aluguel.
Então eu fui.
Não porque Sydney tinha deixado de ser casa, mas porque, por um tempo, eu não tinha como pagar a vida que eu tinha construído lá.
A Itália deveria ser o meu refúgio
Quando cheguei na Itália, ela pareceu ser exatamente isso.
Tudo era diferente.
Minha irmã estava lá. O marido dela estava lá. E tinha a Maya, a cachorra deles.
Eu nunca tinha morado com cachorro na fase adulta e, na verdade, tinha medo de cachorro. Estava apreensiva de dividir a casa com ela.
A Maya, aparentemente, tinha outros planos.
Ela era doce, atrevida e conseguiu me conquistar por completo.
No começo, eu ainda estava terminando um contrato com a consultoria australiana em que trabalhava como consultora de gerenciamento de projetos de TI. Em algum momento, isso também acabou.
Pela primeira vez em muito tempo, parei de trabalhar completamente.
E eu estava na Itália.
Então, obviamente, eu comi.
Gelato. Panetone. Massa. Pizza. Arancini. Todas as sobremesas de Natal possíveis.
Pizza fritta. Meu Deus.
Por um tempo, eu realmente achei que estava melhor só por estar em outro lugar.
País novo. Ambiente novo. Sem o aluguel de Sydney chegando toda semana.
Mas, em algum momento, a euforia de mudar de cenário passou.
E o meu corpo continuava sendo o meu corpo.
Eu tinha mudado de país, mas não tinha deixado o meu corpo para trás
Quando o inverno chegou, comecei a piorar de novo.
A depressão voltava por períodos. A dor crônica ficou mais difícil de administrar.
Ainda assim, viajei pela Itália com a minha irmã quando dava. Fomos para Milão, Verona, Florença e o Lago de Garda.
Mas essas viagens eram diferentes do jeito que eu viajava antes de adoecer.
Às vezes a gente estava passeando e eu precisava voltar para o hotel só para poder deitar.
Às vezes o meu corpo decidia que o dia tinha acabado antes de mim.
Em algum momento, as viagens pararam de vez.
Eu não estava bem o suficiente. E também não dava para continuar gastando como se estivesse em férias infinitas na Europa.
Talvez essa tenha sido uma das coisas mais difíceis de entender sobre a dor crônica.
Você pode mudar as suas circunstâncias. Pode tirar parte do estresse. Pode se mudar para um lugar lindo.
Mas você chega lá dentro do mesmo corpo.
A Itália não me curou por mágica.
O que ela me deu foi outra coisa. Espaço.
O que aconteceu quando eu finalmente tive espaço
Comecei a me consultar com médicos brasileiros online. Encontrei um bom clínico geral na Itália por indicação da minha irmã, mudei partes do tratamento e devagar comecei a me reencontrar.
Não foi rápido.
Eu diria que só por volta de julho comecei a me sentir realmente melhor.
Mas, ao longo desses meses, outra coisa tinha começado a acontecer.
Eu comecei a falar.
Comecei a criar conteúdo online sobre como é, de verdade, viver com dor crônica.
Não a versão polida.
Falei sobre dor crônica e depressão. Sobre perder partes da sua vida porque o seu corpo, de repente, não faz mais o que fazia. Sobre como é solitário quando você não consegue viajar, se exercitar, caminhar ou, às vezes, nem sair da cama.
Falei sobre assuntos que as pessoas costumam evitar por serem desconfortáveis.
E botei a minha cara na câmera enquanto fazia isso.
Existe um tipo específico de solidão na dor crônica que eu tinha dificuldade de explicar antes.
Você pode dizer a alguém que está com dor. A pessoa pode te amar. Pode sentar do seu lado, fazer companhia, dizer as palavras certas e querer ajudar de verdade.
Mas ela não consegue sentir o que você está sentindo.
E ela também tem a própria vida para viver.
E, mesmo que pudesse parar tudo por você, ainda assim não mudaria o que está acontecendo dentro do seu corpo.
Compartilhando a minha experiência, comecei a conversar com pessoas, principalmente brasileiras, que conheciam alguma versão dessa mesma solidão.
A Itália virou o lugar onde eu finalmente tive espaço para colocar para fora coisas que vinha carregando em silêncio.
Foi bonito e difícil. Teve comida, família, a Maya e viagens, mas também teve dor, depressão e muito tempo tentando entender quem eu era quando não conseguia viver como antes.
A Itália não foi o ano em que escapei da dor crônica. Foi o ano em que parei de correr tempo suficiente para me ouvir.
E por isso eu sou profundamente grata.
Agora eu preciso voltar pra casa
Daqui a algumas semanas, saio da Itália para viajar com amigos por umas três semanas.
Depois volto para cá por uma última semana.
E então volto para a Austrália. De volta para Sydney.
Só que quem está voltando não é a menina de 21 anos que chegou lá em 2012.
E também não é bem a mulher que foi embora em 1º de novembro de 2025.
Estou voltando com uma condição crônica. Com outra relação com o meu corpo. Com perguntas sobre como quero trabalhar e quanto da minha vida estou disposta a trocar por segurança financeira.
Quero entender como é, para mim hoje, viajar pela Austrália.
Vou voltar para a Gold Coast, lugar que conheci com amigos quando era mais nova, para passar o meu aniversário este ano.
Quero viajar mais pela Austrália. Quero mais liberdade geográfica. Quero descobrir como é viajar quando eu paro de presumir que o meu corpo tem energia infinita.
E aí tem o trabalho.
Sydney não ficou mais barata enquanto eu estive fora.
Vou precisar de renda.
O caminho óbvio é a carreira que eu já conheço. Passei anos em gerenciamento de projetos e consultoria de TI. Sei fazer esse trabalho. E ele paga bem.
Mas eu não quero voltar para um escritório só porque é o jeito mais fácil de pagar a cidade para onde estou voltando.
Alguma coisa mudou enquanto eu estive fora.
Descobri o quanto gosto de me expressar. De falar. De criar. De me conectar com pessoas que eu jamais teria conhecido de outro jeito.
E de escrever.
Quero escrever. Quero viajar. Quero conhecer pessoas.
Quero contar histórias que vão mais fundo do que a versão polida da vida que a gente costuma mostrar.
Ainda não sei no que isso vira.
Voltar pra casa pela segunda vez
Catorze anos atrás, cheguei em Sydney quase sem dinheiro e precisando arrumar emprego.
Em breve, chego de novo sabendo que preciso trabalhar.
A diferença é que, aos 21, eu estava disposta a fazer quase qualquer coisa para construir uma vida ali.
Aos 36, a pergunta é outra: que tipo de vida eu estou disposta a construir?
Ainda não sei se volto para o gerenciamento de projetos, se escrever e criar podem virar algo maior, ou se a liberdade geográfica que passei a desejar vai mudar de vez a minha relação com Sydney.
Talvez Sydney volte a ser casa imediatamente.
Talvez eu descubra que mudei demais para voltar à vida que deixei.
Provavelmente, como da primeira vez, a resposta vai demorar um pouco.
O que eu sei é que estou voltando para a cidade onde me tornei adulta, construí uma carreira, encontrei a minha gente e aprendi o que casa pode significar quando você a constrói em um lugar onde não nasceu.
Da primeira vez que cheguei em Sydney, eu precisei descobrir como ficar.
Desta vez, preciso descobrir como eu quero viver lá.
E, estranhamente, isso faz voltar pra casa parecer um pouco com viajar para um lugar novo.
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Jessica Paes
Jessica Paes é escritora e criadora de conteúdo brasileira-australiana. Depois de quase 14 anos morando na Austrália, tirou um ano sabático na Itália após o diagnóstico de uma condição crônica de saúde. Escreve sobre viagem, vida fora do país, identidade e explorar o mundo convivendo com dor crônica.