Identidade
Eu achava que liberdade era poder fazer qualquer coisa. Hoje penso diferente.
Por muito tempo, liberdade significou poder escolher. Então meu corpo começou a colocar uma pergunta antes de cada escolha: eu consigo?
Jessica Paes · · 9 min de leitura
Eu passei boa parte da minha vida querendo ser livre.
Talvez porque, desde muito nova, eu associasse liberdade à possibilidade de escolher.
Escolher onde morar.
Escolher o que fazer.
Escolher com quem estar.
Escolher quando viajar.
Escolher que tipo de vida eu queria construir.
Aos 16 anos, eu já tinha uma certeza: um dia eu sairia de casa.
Eu queria conhecer o mundo, morar fora, construir minha própria vida. Queria ter independência suficiente para não precisar pedir autorização para existir do jeito que eu queria.
E eu fui.
Anos depois, percebi que sair de casa era só o começo.
Porque existe uma diferença enorme entre poder escolher a própria vida e conseguir vivê-la da maneira que você imaginou.
E foi no meu próprio corpo que eu comecei a entender isso.
A mulher que eu sinto falta
Não é exatamente a mulher que eu era antes de ficar doente que eu sinto falta.
É uma coisa mais específica.
Eu sinto falta da mulher que sabia que poderia ter uma vida normal.
Principalmente porque ela sabia que poderia trabalhar.
Eu podia estar infeliz em um emprego. Podia pensar que aquele trabalho não era para mim. Podia questionar minha carreira inteira.
Mas uma coisa eu não questionava:
eu conseguiria trabalhar.
Essa possibilidade parecia tão básica que eu nunca precisei pensar nela.
Eu também não precisava pensar duas vezes antes de decidir ir à academia, fazer Pilates, yoga, correr, caminhar ou simplesmente sair de casa.
Eu podia fazer exercício porque gostava.
Podia usar movimento como uma forma de cuidar da minha cabeça, do meu corpo e do meu bem-estar.
Podia aceitar um convite porque queria ir.
Podia sair à noite sem antes consultar meu corpo como se ele fosse um calendário:
Como você está hoje?
Será que aguenta?
E amanhã?
E se eu piorar?
Hoje existe uma camada a mais em quase toda decisão.
Eu consigo fazer isso?
E às vezes essa pergunta vem antes de outra, que deveria ser a primeira:
Eu quero fazer isso?
É aí que mora uma das coisas mais difíceis de explicar sobre viver com uma condição crônica.
Nem sempre o problema é não poder fazer alguma coisa.
Às vezes é não saber se você poderá.
Eu sempre fui uma pessoa que fazia
Durante muito tempo, eu construí minha identidade em torno da capacidade de fazer.
Eu estudava. Trabalhava. Viajava. Treinava.
E fazia bastante.
Antes de adoecer, viajar também era uma experiência muito diferente.
Eu conseguia passar horas andando. Ficava em hostel. Viajava só com bagagem de mão porque era mais barato e mais fácil. Queria conhecer o máximo possível.
Acordava cedo, ia para a academia, tomava café no hotel, passava o dia conhecendo lugares, voltava para tomar banho e me arrumar e depois ainda saía para jantar.
Em viagens de ski, eu esquiava, fazia uma pausa para comer, tomava banho e ainda tinha energia para sair.
Até quando eu dizia que queria fazer uma viagem mais tranquila, normalmente havia alguma atividade planejada.
Eu achava isso normal.
Meu corpo estava disponível para a vida.
E eu não percebia o privilégio que era isso.
A primeira vez que eu percebi que alguma coisa tinha mudado
Uma das primeiras viagens em que senti isso de forma muito concreta foi a Tailândia.
Eu estava viajando com meu ex namorado e minhas irmãs.
Foram semanas de calor, comida diferente, barulho, deslocamentos e muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
Eu tive problemas gastrointestinais, náusea, enxaqueca e muito cansaço.
Não me lembro daquela viagem principalmente pela dor crônica. O que lembro é de perceber que eu não conseguia acompanhar o ritmo que esperava de mim.
Teve uma noite em que eu estava com uma enxaqueca tão forte que não consegui sair da cama.
Meu namorado ficou decepcionado.
Em outro momento, minhas irmãs queriam sair, tomar margarita, pegar barco, fazer coisas.
E muitas vezes eu simplesmente dizia:
“Vai. Eu vou ficar no hotel.”
Com minhas irmãs, era mais fácil.
Elas tinham uma à outra.
Eu não precisava sentir que estava impedindo a viagem de ninguém.
Então eu ficava no hotel, tomava água de coco, descansava e tentava me recuperar.
Foi uma experiência pequena comparada ao que viria depois.
Mas acho que foi uma das primeiras vezes em que percebi que meu corpo estava começando a negociar comigo.
A pergunta que veio depois
Quando você vive com uma condição crônica, as escolhas começam a ter um preço que nem sempre aparece no cartão de crédito.
Existe dinheiro.
Existe tempo.
E existe energia.
Às vezes eu posso fazer alguma coisa.
Mas o que vai acontecer depois?
Se eu fizer um treino mais pesado porque estou feliz e com vontade, talvez meu corpo cobre essa escolha depois.
Se eu comer alguma coisa que sei que pode fazer meu intestino reclamar porque estou com muita vontade, talvez eu pague por isso depois.
Se eu aceitar um evento porque quero muito ir, talvez precise cancelar alguma outra coisa no dia seguinte.
E existe uma parte particularmente difícil nisso:
eu consigo dizer não para outras pessoas.
O mais difícil é dizer não para mim mesma.
Porque às vezes eu realmente quero.
Eu quero sair.
Quero treinar.
Quero comer aquela coisa.
Quero viajar.
Quero dançar.
Quero fazer tudo.
E preciso aprender que respeitar meu corpo também significa aceitar que nem todo desejo precisa virar uma ação imediatamente.
Isso não é falta de liberdade.
Mas, durante muito tempo, pareceu.
Então eu comecei a questionar o que é liberdade
Eu cresci acreditando que liberdade era não ter ninguém dizendo o que fazer.
Depois descobri que a vida adulta tem uma ironia engraçada.
Você pode sair da casa dos seus pais e precisar trabalhar para pagar o aluguel.
Pode abrir uma empresa para ter mais flexibilidade e acabar trabalhando 24 horas por dia.
Pode ganhar mais dinheiro e descobrir que o preço daquele dinheiro é o seu tempo.
Pode morar em outro país e ainda assim sentir que está presa a uma rotina que não escolheu.
Talvez meus pais estivessem parcialmente certos quando diziam que liberdade era uma ilusão.
Eu odiava ouvir isso.
Hoje eu entendo de outra maneira.
Liberdade absoluta provavelmente não existe.
Sempre existem limites.
Dinheiro.
Responsabilidades.
Contratos.
Leis.
Relacionamentos.
Saúde.
O corpo.
O que mudou para mim foi entender que liberdade não significa poder fazer qualquer coisa.
Liberdade é ter poder de escolha dentro da vida que você realmente tem.
E, principalmente, conseguir escolher sem se abandonar no processo.
Isso também mudou minha ideia de sucesso
Durante muito tempo, sucesso tinha uma aparência muito específica para mim.
Quando eu tinha 16 anos e escolhi estudar Relações Internacionais, parte do meu imaginário era me tornar uma diplomata, talvez uma embaixadora brasileira no exterior.
Eu gostava da ideia de viajar.
De ocupar um lugar importante.
De ter status.
De ser reconhecida.
Depois vieram outros empregos, cargos, salários e responsabilidades.
Eu me tornei project manager e trabalhei como consultora.
Por fora, era uma carreira respeitável.
Eu participava de reuniões com executivos, trabalhava em projectos complexos e era bem remunerada.
Por dentro, muitas vezes, eu não estava feliz.
Havia pressão de todos os lados.
Pressão do cliente.
Pressão da consultoria.
Pressão para entregar.
Pressão para parecer especialista.
E a velha sensação de que talvez eu não fosse boa o suficiente.
Eu conseguia fazer.
Essa nunca foi a pergunta.
A pergunta que demorou muito mais para aparecer foi:
Eu quero continuar fazendo isso?
Talvez eu tenha passado tempo demais tentando provar que conseguia
Eu sou ambiciosa.
Ainda sou.
Não acho que a resposta para uma vida mais saudável seja abandonar objetivos, parar de trabalhar ou fingir que dinheiro não importa.
Segurança financeira importa para mim.
Conforto importa.
Ter uma casa bonita, viajar, investir e construir coisas também importa.
O que mudou foi o preço que estou disposta a pagar.
Eu não quero mais provar que sou uma excelente profissional às custas da minha saúde.
Não quero precisar ser a melhor aluna, a melhor funcionária, a pessoa que nunca falta, a pessoa que sempre entrega mais.
Essas coisas podem ser resultados.
Mas não podem ser a medida do meu valor.
Eu passei muito tempo confundindo desempenho com identidade.
E talvez uma das coisas mais importantes que estou aprendendo seja que eu sou muito maior do que aquilo que consigo produzir.
O que eu faria diferente
Se eu pudesse sentar com a Jess de 16 anos, eu provavelmente não diria para ela desistir dos sonhos.
Eu diria para ela respirar.
“Calma.”
“Você não precisa continuar correndo.”
Eu diria para ela prestar atenção no que a nutre.
Não apenas no que parece certo no papel.
Não apenas no que traz dinheiro.
Não apenas no que impressiona outras pessoas.
Eu perguntaria:
O que te dá energia?
O que te deixa curiosa?
O que faz você esquecer de olhar para o relógio?
O que você faria se não precisasse provar nada para ninguém?
Eu provavelmente também diria para ela fazer terapia mais cedo.
Para cuidar da saúde.
Para escolher melhor as pessoas ao redor.
Para não aceitar que falem com ela de qualquer maneira.
Para aprender a se defender.
E, principalmente, para ser sua própria melhor amiga.
Porque eu fui muito boa em cobrar de mim.
Nem sempre fui boa em cuidar de mim.
Hoje, eu quero uma vida que tenha a minha cara
Eu ainda quero viajar.
Ainda quero trabalhar.
Ainda quero ganhar dinheiro.
Ainda quero construir projetos.
Quero escrever.
Quero criar.
Quero conhecer pessoas.
Quero dançar.
Quero cuidar do meu corpo.
Quero rir.
Quero viver coisas bonitas.
A diferença é que hoje eu quero tudo isso de uma maneira que seja possível sustentar.
Talvez eu não precise treinar seis ou sete dias por semana.
Talvez eu não precise preencher todos os espaços vazios da agenda.
Talvez descansar não seja tempo perdido.
Talvez fazer menos não seja desistir.
Talvez escolher uma coisa signifique, inevitavelmente, deixar outra para depois.
E talvez isso seja maturidade.
Não porque eu finalmente descobri como viver.
Mas porque comecei a aceitar que a vida não precisa ser uma prova de resistência.
A liberdade que eu tenho hoje
Eu ainda sinto falta da espontaneidade.
Sinto falta de poder dizer “sim” sem pensar nas consequências.
Sinto falta de confiar que meu corpo estará disponível amanhã.
Mas também descobri uma coisa que a mulher que eu era antes não sabia.
Você pode ter liberdade e ainda ter limites.
Pode ser ambiciosa e precisar desacelerar.
Pode amar viajar e precisar descansar.
Pode querer trabalhar e precisar que o trabalho seja compatível com a sua vida.
Pode querer dinheiro sem transformar dinheiro no objetivo final.
Pode ter muitos sonhos e ainda mudar de ideia.
Pode não saber exatamente quem você está se tornando.
E pode escolher de novo.
Talvez liberdade não seja viver sem restrições.
Talvez seja conseguir olhar para a própria vida e perguntar:
Isso ainda combina comigo?
E ter coragem de mudar a resposta quando ela deixar de ser sim.
Hoje, é isso que eu estou tentando construir.
Não uma vida perfeita.
Não uma vida sem dor.
Não uma vida em que eu consiga fazer tudo.
Uma vida em que eu consiga me reconhecer.
Porque talvez a maior liberdade não seja poder fazer qualquer coisa.
Talvez seja finalmente poder escolher sem precisar deixar de ser quem eu sou para conseguir viver.
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- Trabalho e sucesso
- Vida real
Jessica Paes
Jessica Paes é escritora e criadora de conteúdo brasileira-australiana. Depois de quase 14 anos morando na Austrália, tirou um ano sabático na Itália após o diagnóstico de uma condição crônica de saúde. Escreve sobre viagem, vida fora do país, identidade e explorar o mundo convivendo com dor crônica.